
Memento Mori
Eu sempre fui contra esse lance pós-moderno de se comemorar efemérides literárias. Há uma tendência exagerada na humanidade em se atribuir méritos post-mortem que não existiam em vida. Mas, enfim, Mari vem me enchendo o saco há quase um mês com o aniversário de 200 anos de nascimento de Edgar Allan Poe, a ser celebrado hoje, 19 de janeiro. Por isso, senti-me na obrigação de escrever umas poucas linhas a esse respeito.
Eu tenho grande admiração pelo Poe, prova cabal de que só quem é realmente fudido na vida acaba por desenvolver o gênio (sem querer soar Bloom) da boa literatura. Um ano depois de seu nascimento, o pai do Poe abandona a família e, outro ano depois, a mãe dele morre tísica. Ele é adotado informalmente pelos Allan, cujo patriarca, John, exibia sinais fortíssimos de bipolaridade descontrolada. O horror e o amargor jamais abandonariam o pobre Poe.
O paizinho (adotivo) do Poe recebe uma herança e, com o dinheiro e as terras recebidas, decide que é hora do Poe seguir seu rumo, e o manda pra Universidade da Virginia, em 1826. A universidade havia sido fundada um ano antes e, apesar das regras restritas contra bebida, jogo e libertinagem em geral (tentando seguir os moldes e ideais do pensamento moral americano do século 19), mais parecia a universidade de qualquer comédia americana com jovens e loiras peitudas. Poe gastava todo o (pouco) dinheiro que seu paizinho mandava em apostas. `Para piorar as coisas, a mulher com quem ele havia noivado antes de ingressas na universidade percebeu que ficar com o Poe seria uma grande furada, e decide casar-se com outro. Quando ele percebeu o quão fudido estava, Poe voltou-se para a literatura.
Trabalhando em um jornal, ele esperava poder ter chance e espaço para publicar seus poemas, que em grande parte retratavam a única coisa que ele conhecia na vida: o amargor. Lá pelas tantas, ele dá-se conta que essa vida que ele levava não serviria para concretizar seus ideais e decide, então, fazer o que muitos jovens pobres ainda fazem quando não conseguem emprego: alistou-se no exército (com uma certidão de nascimento falsa, que dava a ele 22 anos quando, em verdade, tinha apenas 18).
Seu alistamento era por um período de cinco anos mas, depois de dois anos ele decidiu que não queria mais ficar no exército. Então, Poe procurou seu comandante e abriu o jogo sobre a certidão falsa, esperando que fosse ter uma baixa desonrosa. Mas, como amargor pouco é bobagem na vida do indivíduo, o comandante disse que só daria a baixa ao Poe se ele se reconciliasse com seu paizinho. Depois de escrever cartas chorosas pedindo perdão, as quais seuqer foram respondidas, Poe decide visitar a casa da família para conversar pessoalmente, somente para descobrir que sua mãezinha havia morrido na noite anterior. O paizinho decide, então, dar uma segunda chance ao fodido.
A partir daí a carreira literária do Poe deslanchou e ele realmente esperava poder sobreviver exclusivamente dela. O problema é que, como a maior parte do público leitor dos autores estadunidenses ainda estava na Inglaterra, e o mercado editorial inglês não era regulado no que tangia a pirataria (edições não autorizadas eram a regra), o Poe só se fudia cada vez mais e só encontrava certo consolo no fundo de uma garrafa — fato, esse, que o fez perder um ótimo emprego público na aduana da Filadélfia, pois ele perdeu a entrevista por estar, mui provavelmente, bêbado.
Casou-se, a esposa morreu tísica. Tentou casar-se de novo (várias vezes) mas as mulheres fugiam dele por considerá-lo instável demais. Até que, em 3 de outubro de 1849, o Poe foi encontrado perambulando pelas ruas frias de Baltimore, vestindo roupas que não eram dele, e em um estado onde nada do que ele dizia fazia sentido. Sem recobrar a coerência, Poe morreu quatro dias depois e, apesar da causa mortis ter sido possivelmente declarada como “inflamação cerebral” (que nada mais era do que um eufemismo pra alcoolismo), há fortes suspeitas de que ele possa ter morrido de cirrose, meningite, cólera, sífilis e, até mesmo, raiva. Ou uma mistura de todas essas coisas.
Como desgraça pouca é bobagem, depois de sua morte seu obituário ficou a cargo de Rufus Griswold, maior arqui-inimigo literário do Poe. Escrevendo sob pseudônimo, Griswold difamou o Poe dizendo que ele era um drogado depravado filhodaputa, apesar de não haver evidências de que ele se drogava (quanto ao resto, no entanto…)
Enfim, depois de uma vida dessas, o melhor mesmo é a morte, né? Talvez seja por isso que o Poe atraia tantos fãs mundo afora. Talvez até seja uma boa celebrar… não o nascimento mas, quem sabe, a morte dele, já que só assim o cara teve algum sossego…